Toda vez que a data de lançamento de uma nova versão de alguma distribuição popular de sistemas operacionais Linux se aproxima, aproveito pra reavaliar meus conceitos sobre o desenvolvimento e evolução do Linux… seu passado, presente e futuro. Como usuário e defensor do Linux, assim como muitos que conheço, tenho sentido cada vez mais aquela ansiedade que vem sido promovida pela possível proximidade do dia em que o Linux passará a fazer parte dos desktops de usuários domésticos (entenda-se uso não profissional genérico). Sim… realmente acredito que estamos perto do dia em que isso irá se tornar realidade, mesmo com o presente indiscutível domínio do sistema operacional janela$ no mercado, e acredito nisso porque o primeiro passo já aconteceu (tornar o Linux um sistema operacional fácil de operar e intuitivo, que não represente dificuldade nem mesmo para o mais iniciante dos usuários). Mas o que será que está faltando para que o Linux comece a conquistar sua fatia de mercado entre os usuários?
Estive lendo essa semana um artigo no SlashDot.org intitulado “Why Linux doesn´t spread – The curse of being free”, que defende um aspecto “filosófico” como o motivo da modesta popularidade do Linux entre usuários comuns. O artigo defende como justificativa a tendência dos seres humanos de não conseguirem, atualmente, igualar a qualidade de coisas gratuitas à qualidade de coisas “pagas”. O autor do artigo (Vlad Dolezal) acredita que em decorrência de um problema de percepção, as pessoas passam a ver o Linux como um sistema operacional “sem valor” já que podem obtê-lo gratuitamente, em relação a um sistema operacional que “vale” R$ 500,00 que não podemos obter gratuitamente, ao menos sem pirataria. Até concordo em parte com o ponto de vista do autor do artigo em questão, pois eu mesmo já ouvi dezenas de vezes a pergunta “como pode ser tão bom e ser grátis?” ou a pergunta “como as pessoas não conhecem e não usam se é tão bom e grátis?”… Aos que me fizeram a ultima pergunta, eu respondo: Boa pergunta! Ou seja, tem fundamento o aspecto citado pelo autor, e realmente tem alguma relevância, mas acredito que nesse caso, o buraco do coelho é bem mais fundo, pois além da desconfiança natural que as pessoas adquiriram com o “grátis”, temos atualmente uma sociedade relativamente incompatível com escolhas reais, pois de muito tempo pra cá acabamos nos acostumando a receber variedades imensas de uma unidade em diversos segmentos do mercado, e desaprendemos a escolher, e isso se tornou cômodo já que a responsabilidade da escolha deixa de existir quando só temos uma opção, e com isso o problema deixa de ser nosso e podemos ficar apenas reclamando de nossa única opção sem fazer nada a respeito. É um aspecto cultural e social que não podemos desconsiderar ao pensar sobre tudo isso. Talvez seja realmente muito cômodo para o usuário descartar a viabilidade do Linux como sistema operacional desktop, sem nem ao menos testá-lo e conhecê-lo (e vejo muitas pessoas agindo assim. Começam a criar empecilhos e pré-supor defeitos antes mesmo de seu primeiro contato com o sistema).
Ainda perto desse ponto de vista, existe a teoria do “medo do desconhecido, e da dificuldade de adaptação”, e também o temor de usuários iniciantes que ainda vêem erroneamente o Linux como um sistema operacional complicado específico para programadores ou usuários avançados, o que está longe de ser verdade há muito tempo, já que o Linux (pelo menos as distribuições mais novas e populares) já se tornou um sistema operacional extremamente intuitivo e “user friendly” até mesmo para usuários principiantes, isso sem contar a enorme vantagem dos LiveCDs que permitem que o usuário experimente e conheça o sistema sem ter que instalá-lo em seu HD, executando-o diretamente do CD. Além disso, existe também (mais no meio corporativo, porém também existente entre usuários comuns) o receio da ausência de suporte, o que também já deixou de existir há muito tempo. Hoje em dia, o usuário Linux pode contar com suporte oferecido por inúmeras empresas e distribuidores (que podem oferecer suporte pago mesmo sendo o sistema operacional gratuito) além do intenso movimento da comunidade de usuários Linux, que se reúne em grupos on-line que contam com milhares de participantes trocando gratuitamente em prol da própria comunidade, experiências, dúvidas e prestando suporte a todos os usuários iniciantes e até mesmo avançados. Podemos encontrar esse tipo de suporte em qualquer idioma, em fóruns de discussão, canais de chat IRC, blogs, em fim… é uma quantidade imensa de informação disponível gratuitamente a qualquer usuário que precise de ajuda com Linux, o que nos mostra que suporte há muito tempo deixou de ser problema independente do tipo de utilização (pessoal ou profissional) que o usuário vá fazer do sistema operacional.
Quando penso a respeito “do que falta” para que o Linux atinja sua popularidade entre os usuários comuns, me lembro de uma frase que li na Linux-Foundation.org, que diz que “Uma plataforma é tão forte como as aplicações que a mesma suporta”. Pra comentar sobre isso, prefiro resumir a frase ao termo “compatibilidade” nesse sentido. Ok… muitos já sabem que o Linux já se tornou um excelente sistema operacional para Desktops… seguro… estável… confiável… bonito… prático (estamos quase lá)… MAS… ainda continua existindo aquela famosa pergunta “Será que roda tal software? Será que roda tal jogo?”. E é com base em algumas respostas possíveis para essas duas perguntas que muitos usuários deixam de migrar para o Linux, mesmo reconhecendo sua superioridade em diversos aspectos com relação ao janela$. Temos ai um certo circulo vicioso. Muitos softwares proprietários utilizados por milhões de usuários não rodam no Linux já que seus desenvolvedores só os produzem para o janela$, já que este domina aproximadamente 90% do mercado de usuários desktop. Ou seja, de uma certa forma, o Linux não é popular por não rodar certos programas e jogos populares, e do outro lado da moeda, não roda certos programas e jogos por não ser popular o bastante pra despertar a atenção dos desenvolvedores o bastante para produzir uma versão pra Linux… E ai chegamos a um outro problema que atinge os desenvolvedores que querem produzir versões de seus softwares pra Linux… Produzir PRA QUAL DISTRIBUIÇÃO LINUX?
Chegamos agora naquele que, a meu ver, pode ser o principal problema do Linux com relação a sua popularidade e utilização. Atualmente existem mais de 300 distribuições Linux registradas, e apesar de todas elas serem derivadas de um grupo relativamente pequeno formado pelas principais distribuições, e apesar de todas usarem o mesmo Kernel (núcleo do sistema) temos um enorme problema de padronização do sistema. Problema de INTEROPERABILIDADE. As diferentes distribuições Linux usam diferentes sistemas de empacotamento, diferentes APIs, em fim, diferem muito uma da outra no que diz respeito a sua estrutura de organização e funcionamento. Em fim, coloque-se no lugar de um desenvolvedor de software proprietário (um programa ou jogo qualquer) que quer disponibilizar seu software para Linux… ai vem a dúvida… disponibilizar pra que distribuição? Alguns poderiam responder a pergunta com um “desenvolva para a distribuição mais popular entre os usuários que você deseja atingir com seu software”, mas lembrem-se que a distribuição mais popular hoje, pode não ser a distribuição mais popular amanhã. Tendências existem, certezas não. Já imaginou como seria esse tal “domínio” do mercado por parte do janela$ se existissem mais de 300 versões dele e uma não fosse totalmente compatível com a outra? Como você deve imaginar, quase ninguém utilizaria, pois isso imprime muitas dificuldades e restrições ao usuário final, que apenas quer um sistema operacional confiável para realizar suas tarefas usando os programas de sua preferência sem maiores complicações ou dores de cabeça, e também aos desenvolvedores, que não poderiam desenvolver seus programas para uma plataforma padronizada, e com isso teriam que fazer muitas escolhas que certamente iriam limitar o público a ser atingido com o software em desenvolvimento.
Este problema vai ainda mais longe, quando pensamos na questão da interface gráfica do sistema operacional. Atualmente no Linux contamos com as duas principais e mais completas interfaces gráficas para o sistema… o Gnome e o KDE. Ambas são extremamente completas, funcionais, bonitas e cheias de recursos… A meu ver, ambas estão praticamente prontas para serem “o rosto” do sistema operacional Linux para todos os usuários, mas o simples fato de existirem DUAS, apesar de apoiar as idéias de liberdade de escolha e variedade de opções que estão associadas aos sistemas operacionais OpenSource, acabam atrapalhando um pouco no que diz respeito à padronização e compatibilidade, já que as duas interfaces não possuem uma padronização de desenvolvimento e funcionamento, usam toolkits diferentes, em fim, dificultam as coisas para o desenvolvedor que quer fazer um software compatível com qualquer interface gráfica. Pode ter certeza que se uma dessas interfaces gráficas deixasse de existir, teríamos em pouco tempo o Linux muito mais presente nos desktops de usuários comuns, pois chegaríamos muito mais perto desse conceito de padronização e com isso de interoperabilidade. A interoperabilidade entre as distribuições Linux certamente vai evoluir, porém isso demanda tempo, organização, e muita cooperação entre os desenvolvedores… E o mais importante de tudo… isso tem um custo… como qualquer coisa no mundo da tecnologia, o desenvolvimento só acelera quando entra dinheiro.
Mesmo com todo esse problema resultante da ausência de interoperabilidade entre as distribuições Linux, temos disponíveis para as distribuições mais populares uma variedade GIGANTESTA de opções de software para todo tipo de atividade computacional. Conseguimos achar facilmente programas e jogos para todos os gostos no mundo OpenSource, mas temos atualmente usuários “viciados” em plataformas e programas já conhecidas há anos, até porque eles passaram anos sem ter outras opções acessíveis (ao menos para o público menos experiente e especializado), e acabaram ficando dependentes e à mercê do sistema e dos programas já conhecidos. Você pode atualmente citar qualquer programa mais “famoso” ou “popular” pra qualquer atividade que possa realizar com um computador, e eu mostro pra você um programa OpenSource de igualdade ou até mesmo superioridade técnica e funcional em relação ao citado por você. Mas temos o problema da adaptação (principalmente em ambiente corporativo, pois isso demanda tempo, e o tempo custa dinheiro, mas mesmo assim não deixa de ser viável, e até mesmo vantajoso. A meu ver o mercado corporativo só precisa de tempo para se adaptar ao software livre, pois é um bom negócio e já temos inúmeros cases de sucesso pra comprovar o aumento de lucratividade de um negócio depois da migração para o software livre). Temos também em Linux uma maneira de fugir do problema de adaptação e continuar usando software já conhecido, que são as virtual machines e os emuladores que permitem que o usuário utilize programas desenvolvidos para windows no Linux, e esta tecnologia está cada vez mais perfeita. Porém pra mim isso é só mais uma maneira de estimular a continuidade dessa dependência de produtos aos quais todos estão familiarizados, e de impedir que as pessoas descubram, conheçam e se familiarizem com produtos OpenSource que em muitos casos são até melhores que os softwares proprietários em questão. Mas pra quem prefere continuar dependente, a opção é viável e está disponível pra todos.
Ai você me diz “Beleza gmazk… você apresentou os principais problemas relacionados com a popularidade do Linux… mas quais as soluções?”. Insisto que o primeiro passo já aconteceu (tornar o Linux user-friendly (intuitivo e fácil de usar até mesmo para o usuário mais iniciante). Penso que estamos no caminho certo. Na opinião da maioria dos usuários mais experientes e especialistas da área, precisamos apenas de TEMPO para que a interoperabilidade, compatibilidade e conseqüente popularidade do Linux se torne uma realidade. Não podemos nos esquecer também da contribuição da comunidade de usuários Linux, que poderia reclamar menos dos problemas existentes e ao invés disso contribuir um pouco mais com aquilo que puder, já que uma simples sugestão, tradução, suporte prestado a um iniciante ou até mesmo indicação do sistema operacional a alguém que não conhece pode ajudar muito a comunidade. Até mesmo sua reflexão e discussão a respeito desse artigo pode ajudar. E quem sabe essa história toda de fusão Microsoft-Yahoo não leva nossa gigante amiga Google a ajudar (como fez por exemplo no caso do projeto Wine, tornando-o totalmente compatível e pronto pra rodar o software Photoshop da Adobe) o SO Linux e a comunidade OpenSorce, afinal de contas, um dinheirinho injetado nos projetos vai muito bem, obrigado… Eu espero ansiosamente e torço muito pra que as coisas, como de costume atualmente, evoluam rápido. Quem sabe no fim de 2010 (futuro bem próximo e sexto aniversário do sistema operacional Ubuntu) nós não possamos ler um novo artigo como este relatando uma realidade bem diferente da que vivemos hoje no mundo dos sistemas operacionais? Let´s wait and check!
Um grande abraço a todos.

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